A região – Capítulo I – As notícias nunca são boas

17 Nov

O ar rarefeito junto com o cheiro a cerveja derramada sobre o solo não era para qualquer um, mas era neste ambiente boémio no fundo da gruta que os membros desta revolução se encontravam. Esta comunidade vivia na ilusão de que era auto-sustentável, mas o conforto que era necessário para atrair mais membros e os membros correctos só era conseguido com a ajuda dos seus aliados do outro lado, os mentores sabiam que não podiam revelar ao comum dos membros o que se realmente passava, um estado que assim que nasce e opera com certos ideais não pode ceder à tentação de revelar que nasceu a partir de outros completamente diferentes. Dentro mantinha-se fiel aos seus princípios e embora os interesses do outro lado ainda não tinham sido descortinados um dia viriam cobrar.

Apesar de não haver um governo explícito, tudo tem se seguir uma certa ordem, para que funcione em harmonia, numa versão descrita por Le Guin esta operacionalidade estava a cabo de um computador e com o seu software que definia as prioridades distribuindo o que era necessário fazer pela população, mas como tudo o que é informático tinha sido criado por um homem e com esse homem vem o seu julgamento, as suas ideias e a sua execução. Noutra versão existe o comité, que é representado pelos membros da sua população seguindo as regras descritas no papel da razão, mas é apenas uma maneira de se seguir a ordem e apresentar que existe uma opção tomada em conjunto. Aqui funcionava um pouco de modo diferente, pela manhã existia neste mesmo local uma lista das tarefas que era necessárias realizar elaboradas na noite anterior pelos elementos que queria participar e se encontrava na boate, onde havia uma para cada um. Cada um escolhia a sua por ordem de chegada, curiosamente as tarefas que teoricamente seriam percepcionadas como mais incómodas eram as primeiras a sair, afinal os membros ainda pensavam primeiro na comunidade e não se encontravam corrompidos pelas mentes e mãos exteriores.

Uma personagem escura em que os olhos verdes resplandeciam sobre a máscara que usava sobre a boca e o nariz entrava sobre o arco que dava para esta secção da gruta, com ela viriam as notícias. Sem se pronunciar sentou-se à mesa e pousou um papel.

– Declaram guerra outra vez? Vejo que querem actuar rapidamente. Teremos que nos preparar para voltar à guerrilha. Alguma informação sobre esta unidade que pretendem destacar para nos eliminar? – Um dos membros que estava a definir as tarefas para o dia seguinte.

Apenas um ligeiro abanar de cabeça e olhos fulminantes deram a resposta ao inquiridor. Não gostava de ser questionada sobre a falta de ou a informação que trazia no papel. O que estava no papel era o que sabia e nada mais. Preparava-se para levantar.

-Espera… Faz um tempo que não tínhamos problemas, porquê levantar novos problemas agora? Não faz muito sentido – a informação era escassa sobre o outro lado – as eleições nem se focaram muito no tópico deste corpo estranho que nós somos para eles, mas foi das primeiras medidas que este novo governo tomou, que corpos estão a mover-se contra nós e qual a sua razão – falou outro dos membros da mesa. Estas palavras não a demoveram e seguiu.

Já do outro lado do arco da boate a personagem foi abordada por alguém que lhe agarrou o braço esquerdo.

– Vens ter comigo hoje? – o homem que tinha agarrado o braço.

– Sim, vamos agora.

Já fora da gruta a Lua em quarto crescente com a sua forma em “D” mentindo na cara de de quem olha para ela pela primeira vez e não sabe, encontravam-se deitados olhando as estrelas que brilhavam acima do topo nevoso das montanhas a Este, as mãos passavam pelo rosto dela, agora já sem a máscara que tapava o seu nariz aquilino e lábios carnudos, que eram beijados longa e vagarosamente aproveitando e desfrutando por cada momento assim passado, as mãos desciam abaixo do ventre e com o seu toque interior provocavam gemidos de prazer até ao êxtase. Passava para o topo, abria as suas pernas e penetrava-a até ambos estarem satisfeitos… A máscara voltava ao seu rosto era altura de voltar a partir.

– Porque continuas a fazer isto?

– Sabes que não o faço por mim. Eu acredito.

– E tu sabes porque estou aqui, se pudesse ia contigo e não voltaria, mas mais importante não te deixava voltar.

– Tu sabes que voltaria, por razões diferentes fazemos parte desta comunidade e temos de pôr os seus interesses à frente dos teus, passado tanto tempo ainda continuas o mesmo que se viu obrigado a vir para aqui. Afinal já passaram 15 anos já era altura de mudares.

– Eu já não era um jovem quando vim para aqui, já tinha a minha personalidade moldada e a juventude rebelde já tinha passado.

– Um dia a tua hipocrisia vai-se virar contra ti, mas sabes que esse dia será o nosso último dia… – desceu a máscara e com um longo beijo se despediram.