A região – Capítulo II – De volta

31 Jul

As nuvens tinham encoberto a Lua tornando a noite escura, permitia voltar ao território governamental no mais perfeito anonimato, a sorte parecia ter sorrido sobre a personagem. Não havia caminho apenas direcção, a bússola a sua aliada estava perto, embora não fosse útil nesta noite sem a luz da Lua para a vislumbrar. Teria de se fiar na sua mente e nas suas pernas que já tinham percorrido o mesmo troço centenas de vezes desde o início da revolução.

A fronteira não existia de um lado ou do outro era tudo igual, quem passasse num devaneio Socrático não iria saber que teria entrado em território não controlado, talvez por isso a revolução se tenha mantido como que silenciada pelo governo, na verdade poucas pessoas sabiam da existência deste País dentro do País. A personagem assim que saísse do território voltaria a misturar-se na comunidade de que era originária, mas que despreza e repudiava, o seu contributo para a revolução nunca era esquecido, nunca tinha vacilado em 15 anos de constante ida e volta. O sorriso com que entrava no seu “País”, os olhos que brilhavam quando falava dele, enganavam, enganavam toda a gente. deste lado não fazia mais nem menos que o peso morto dos invisíveis que estão em todo o lado e não estão em lago algum, por isso sabia, sabia o que ninguém sabia e sabia o que todos sabiam. Era o activo mais valioso da revolução, mas nem a revolução o sabia. A revolução já não tinha líderes, era o sistema complexo do aleatório que a definia, talvez demasiado amorfo para alguma vez resultar, no entanto continuava e continuava.

O dia roçava e já estava do lado do País, sem nunca ter saído dele.  Deste lado já a esperava fazia algumas horas.

– Demoraste mais que o previsto, que se passou? Voltaste-te a perder entre os canaviais? – Sorrindo dizia o homem sentado em cima do capô de um carro branco, enquanto fumava o seu cigarro de alecrim.

– Sabes que às vezes as piadas pagam-se caro. Certamente já tiveste dissabores pela tua engraçada boca.

– Não sei do que falas e nunca hei-de saber, chama-se a virtude dos ignorantes. Espero que estejas ansiosa por voltar ao teu mundo.

– Acabei de vir do meu mundo, apenas volto porque tenho de voltar.

– Sim, claro. Eu também – o escárnio latente nas suas palavras era óbvio. Ao contrário dela, ele não sabia esconder-se.

Nem ela própria sabia o porquê. Em 15 anos ele nunca tinha falhado em a ajudar assim como o seu escárnio pela revolução. Um homem apenas faz isto se ama alguém, mas ele não a amava e ela sabia-o. O mistério da sua filiação à revolução permanecia apenas na memória de alguém que não existia e nunca chegou a existir.

– Então estás à minha espera? Apaga essa ***** e liga o carro. – Disse enquanto fechava a porta.

– Não sabes aproveitar o que a vida tem de bom. Olha o nascer do Sol sobre as montanhas, não irás ver nada mais belo.

– Já vi demasiadas vezes o nascer do Sol, exactamente naquele ponto, assim como tu. Não só o vi mais belo, como o vi várias vezes.

Resignado e chupando as últimas nuvens de fumo do seu cigarro de alecrim, lá desceu do capô e pôs o motor a trabalhar.

– Será que algum dia iremos contentes para o nosso País?

– Sabes bem que será impossível.

Sem demora partiram em direcção à cidade-capital. Onde voltaria ao seu trabalho invisível.